terça-feira, 5 de abril de 2016

A depressão

E a vida nos atropela de uma forma absurda. Julgamos ter o controle de tudo. Estabelecemos 1001 metas. Vamos correndo em busca de todas de uma maneira insana. Chegamos onde muitos gostariam e, por essa razão, muitas vezes pensamos demais quando não queremos mais permanecer... Quando desejamos sair desse tal lugar.
“Como pode um lugar que todos desejam estar e eu querendo sair?”
E assim vivi durante algum tempo em algumas áreas da minha vida. Julgando que eu estava “virando as costas” pras conquistas que obtive no passado. Em alguns momentos me senti até ingrata.
O fato é que a vida é muito mais do que isso. A insatisfação tomou conta de mim. E quando não tomamos uma atitude em nosso favor diante da vida, a vida nos sacode. A dor física e emocional estão aí, muitas vezes, para mostrar o que realmente importa.
Sim, havia medo. Havia orgulho, vaidade. Medo da mudança. Medo de tantas outras coisas. Havia sonhos. Muitos sonhos.
E assim, meio que na porrada, com lágrima, suor, cansaço fui promovendo, a duras penas, todas as mudanças. Caindo e levantando. Fui me afastando de todos. Nada mais tinha graça. Nada mais tinha motivação. Não havia mais vontade. Apenas sono, dores físicas, noites em claro com muito choro, solidão. Dizia para alguns mais chegados: “Viver pra mim tem sido fazer o certo e seguir o script.”
 A vontade, aquela que brota lá de dentro, não existia mais. Dizia, pro ex-amor: “Há um vazio aqui dentro que não sei o que é.”
O amor próprio se foi. Tentava me sentir bem comigo mesma. Mas não me sentia bela. O sentimento de não tenho valor nenhum como ser humano era forte. Qualquer crítica me derrubava. A beleza externa, era secundário, mas a vaidade, aquela positiva que todos devemos ter, também se foi. Nunca mais havia me enxergado viva, bela, gostosa. O vazio foi crescendo.
Um dia a noite, ao assistir uma reportagem tive um estalo: “Preciso de ajuda profissional.”
Após as primeiras sessões o diagnóstico: Depressão e sucessivas crises depressivas. O susto. A não aceitação. Perguntei a psicóloga: Isso é só porque preciso dar continuidade ao tratamento pelo plano. Não tenho isso. Tenho?
Ela apenas me olhou.
Uma bomba. Estou com depressão. Como? Eu? Senti vergonha. Não falei pra ninguém. Chorei. Lembrei de tudo que eu havia lido e visto. Fui ler mais. A porrada da realidade ali em cada linha que eu lia a respeito da doença.
Pensei: “ Não cheguei no fundo do poço. Não posso ser vítima. Preciso reagir.”
Mas a vida, quando bate, bate muito forte. As coisas não iam bem. Até pra ir trabalhar eu chorava. Andar de metrô, lugares fechados, trem, muita gente eu não conseguia ficar. Cheguei no fundo do poço algumas vezes. E nesse tal fundo do poço, chegamos sozinhos. E a decisão de ficar lá ou não é apenas de quem chegou lá. Levantar é tarefa individual, mas encontrar a saída não. Precisamos pedir ajuda de quem nos ama. Dizer a verdade. Os colos, abraços, braços, aparecem. Nos resgatam. Mas é preciso coragem pra tomar a decisão de sair, não apenas do fundo do poço, mas também do casulo chamado depressão.
A vida sempre nos devolve o que queremos. Sempre colhemos o que plantamos, mas o que plantamos com o coração. E o universo conspirou demais ao meu favor. Deus, toda a espiritualidade de luz, me fortaleceram e me ampararam. Minha família, as pessoas que me amam, das quais eu me afastei, a casa espírita que frequento, todos tiveram muita importância em todo esse processo.
Do diagnóstico até hoje já se passou 1 ano e meio. Procurei ajuda dois meses antes.
Nesses quase dois anos do início do “processo de tratamento/conhecimento/ cura” me descubro em cada pequena vitória, seja ir em um grande show tipo o rock in rio e ficar bem ao ficar presa no metro sem o desespero. Em conseguir seguir a dieta pra eliminar parte dos 14 kg que ganhei nesse processo depressivo. Cada gr perdida, cada roupa que volta a caber é uma vitória que eu tenho. Me olhar no espelho e me sentir linda. Trabalhar feito um burro de carga em um emprego que amo, mesmo tendo metade do mundo dizendo que sou burra por ter jogado minha vida profissional fora. Encontrar meus amigos e, de fato, estar ali com eles (muitas vezes estávamos juntos fisicamente mas minha cabeça era só tristeza e vontade de voltar pra casa) e me sentir feliz por isso. Ver que o sentimento de inadequação vai embora aos poucos. Ouvir duras críticas e acusações sem fundamento de alguém que amo durante uma discussão e entender que o problema, dessa vez, não está comigo. E ficar bem. Mesmo calada. Felicidade ao me abrir pro amor novamente, com medo de sofrer, de doer, mas vamos lá!
Há muitos altos e baixos. Não é só vitória. Mas os problemas possuem o tamanho que damos a eles. Caí! Levanto, assopro a poeira e entendo que aquele não é o caminho e preciso de outro. Sem dramas.
Hoje resolvi vir trabalhar com uma das roupas que voltou a caber. Prendi o cabelo, como sempre gostei, passei um hidratante, perfume, baton e make mais linda que existe: o sorriso. Cheguei no escritório que estou há um 1 ano e dois meses e tomei um susto de ouvir de alguém: “Nunca te vi assim. Está linda.” E assim como tem acontecido com frequência (ainda bem!) me senti viva novamente. Vi que por um tempo eu realmente não vivi, apenas existi.
Viver exige coragem. Saber reconhecer as falhas e fragilidades também. O monstro chamado depressão ainda, vez ou outra, ronda. Mas autoconhecimento é fundamental. Hoje não me permito mais nem ficar muito tempo deitada. São lembranças de um lugar que já frequentei e não tenho o menor interesse de voltar. Depressão não igual a uma gripe que chega e nos derruba logo. Ela é um visitante chato, mas que chega e vai se instalando aos poucos. É o vazio que vai aumentando até sufocar. Um processo lento e que muitas vezes nem percebemos. Na primeira sessão com a psicóloga ela perguntou: “Quando isso começou?” Até hoje não sei responder. Mas sei quando começou a acabar. :) 

Há muito, mas muito mesmo a ser superado. A cada estalo novo, vou virando a luz pra um lugar que estava no escuro ainda. E confio que em
algum momento tudo será luz novamente.


"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós." Jean-Paul Sartre